SIM! Existem cortes em "Festim Diabólico" do Hitchcock. Por mais que fãs desesperados tenham tentado provar na época, 1948, que o filme foi gravado em uma única tomada, um único plano sequência, na linguagem cinematográfica, one single shot, o tamanho insuficiente dos rolos de filmagem não permitiria que tal feito se realizasse.
Mas aqui estamos nós, mais de meio século depois do intento Hitchcockiano, falando de mais um filme que tenta repetir o "feito", não realizado, do filme do mestre do suspense: A Casa Muda. A película uruguaia, do diretor Gustavo Hernandes, apresenta-se como sem cortes e produzido em apenas 4 dias. E ainda por cima gravado com um câmera digital Canon amadora!! Pode tudo isso ser possível? E ainda... se tudo isso for possível e resultar num filme. Esse filme é bom? Curioso? Dá uma sacada no trailer.
Bem amigos... já começando com tudo o meu comentário sobre o filme, afirmo: "A casa muda" é um belíssimo filme de terror. Sim, senhores. Ágil em sua média duração (79 min), surpreendente, bonito de se assistir, "A Casa Muda" já pode ser considerado uma grata surpresa do gênero neste ano. E a surpresa ainda é maior para os desavisados, pois o filme vem de um país da América do Sul, demonstrando a competência cada vez maior dos diretores de língua espanhola (Del Toro, Paco Plaza, Hernandes, dentre outros) na direção de filmes de terror, enquanto a insdústria norte-americana, grande consolidadora do gênero, cai aos pedaços.
Na realidade o elenco do filme possui poucos atores, e a história foca mais no terror que se abate sobre a personagem da Florencia Colucci, na casa isolada de tudo e todos, com seu pai e um amigo da família, que os contratou para tirar o excesso de folhagens e mato no derredor da casa, que logo será vendida. Mas a casa possui segredos, que pouco a pouco são revelados, prendendo a atenção imediata do telespectador.
O roteiro do Oscar Estévez não abriu mão de alguns clichês típicos do gênero (os espelhos, o vulto que passa atrás, a lanterna que sempre falha), mas também reinventou-se e reinventou seu próprio estilo, na criação de cenas rápidas e cheias de tensão.
Mas, eis o cerne da questão. Toda a beleza da fotografia que evoca a escuridão, mas ao mesmo tempo cores gélidas, tênues e aterrorizantes, foi feita por uma câmera Canon semi profissional?? E o ritmo do filme? Será que foi mantido sem o auxílio dos cortes? Na minha opinião, a resposta para todas essas perguntas é: não.
E é por isso que talvez eu tenha me desagradado um pouco do filme, que mesmo com qualidades reconhecidíssimas, possui algumas falácias, alguns lapsos não respondidos. A questão dos cortes, por exemplo, fica claro, em diversas situações, que são utilizados, principalmente em cenas na qual a personagem principal mergulha em escuridão profunda, onde, se eu não puder afirmar com certeza que houve cortes, alguém deverá se esforçar bastante para me provar o contrário.
E a câmera? De jeito nenhum a profundidade e a paleta de cores obtida em "A casa muda" vieram de uma câmera semi-profissional Canon! Coloco a minha bela mão no fogo! A última cena deixa claro isso. A visão do personagem enquanto é assassinado resume a plástica do filme, e eu asseguro, que aquelas imagens vieram de uma câmera profissional, num ótimo trabalho do diretor de fotografia que, além de mascarar alguns cortes em cenas chaves da película, ainda trabalhou de modo belíssimo com o claro e escuro e com a profundidade de campo.
Não há como negar que o final do filme é meio confuso e pode desagradar alguns desatenciosos, mas cenas inspiradíssimas e um belo visual são atrativos imperdíveis no terror uruguaio.
AH! E o desfecho verdadeiro do filme ocorre após os créditos finais, ou seja, de qualquer maneira, houve um corte na temporalidade do filme, até porque, antes dos créditos era noite e depois dos créditos era dia. Fica comprovada então a existência de cortes. Porém, polêmicas a parte (e marketeiros geniais a parte também), "A Casa Muda" é um filme de terror a ser assistido por todos que admiram o gênero, talvez não por ter essa cara de "coisa nova no pedaço", mas sim por ser uma obra regular e que contraria os desastrosos padrões atuais que vemos nos filmes de terror.
Nota = 7,0

